A Sangria da Imprensa é a Sangria da Democracia
Enfraquecer o jornalismo é enfraquecer a democracia
O Fato
Há quem acredite que enfraquecer empresas de jornalismo seja apenas uma disputa econômica. Não é. Trata-se, antes de tudo, de uma disputa pelo direito da sociedade de ser informada.
Uma democracia não se sustenta apenas com eleições periódicas. Ela depende de instituições independentes, de um Judiciário forte, de um Parlamento atuante e, sobretudo, de uma imprensa livre, plural e economicamente capaz de exercer sua missão constitucional. Quando o jornalismo é asfixiado financeiramente, não é apenas uma empresa que fecha as portas; é uma voz da sociedade que deixa de existir.
É preciso compreender que a sobrevivência dos veículos de comunicação não representa um interesse privado qualquer. Um jornal que encerra suas atividades, uma rádio que silencia seus microfones ou um portal que deixa de publicar reportagens por falta de recursos significam menos fiscalização do poder, menos investigação, menos transparência e menos espaço para o contraditório.
A história ensina que não é necessário censurar formalmente um jornalista para calá-lo. Basta tornar inviável o exercício da profissão. A asfixia econômica pode produzir efeitos tão graves quanto a censura direta. Quando empresas de comunicação são fragilizadas, reduz-se a capacidade de investigar denúncias, acompanhar licitações, fiscalizar gastos públicos, revelar conflitos de interesse e dar voz aos cidadãos que não possuem acesso aos centros de poder.
Em períodos eleitorais, esse cenário torna-se ainda mais preocupante. O eleitor precisa de informação de qualidade para comparar propostas, identificar promessas inviáveis, conhecer a trajetória dos candidatos e formar sua convicção de maneira livre. Uma imprensa enfraquecida favorece o crescimento da desinformação, dos boatos e da propaganda disfarçada de notícia.
O jornalismo profissional não existe para agradar governantes, partidos políticos, grupos econômicos ou ideologias. Sua função é fazer perguntas difíceis, cobrar explicações, investigar fatos e publicar aquilo que o interesse público exige conhecer. É justamente por isso que incomoda.
Nenhum agente público está acima do escrutínio da imprensa. Da mesma forma, nenhum veículo de comunicação está acima da crítica. O debate democrático pressupõe críticas recíprocas, mas há uma diferença fundamental entre criticar o trabalho jornalístico e criar um ambiente em que o jornalismo se torne inviável. A primeira atitude fortalece a democracia; a segunda a enfraquece.
Quando empresas jornalísticas enfrentam sucessivas dificuldades para sobreviver, perde toda a sociedade. Perdem os pequenos municípios, onde muitas vezes existe apenas um veículo acompanhando a atuação do poder público. Perdem os cidadãos que deixam de conhecer fatos relevantes. Perde o próprio Estado Democrático de Direito, que depende da circulação livre de informações para funcionar plenamente.
Quem celebra o fechamento de jornais, o enfraquecimento de rádios, a redução de redações ou a precarização do trabalho jornalístico talvez não perceba que está comemorando o enfraquecimento de um dos principais instrumentos de fiscalização da República. O vazio deixado pelo jornalismo profissional dificilmente permanece vazio: ele costuma ser ocupado pela desinformação, pela manipulação e pelos interesses que preferem atuar longe da luz da transparência.
A Constituição Federal protege a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa porque reconhece que ambas pertencem à sociedade, e não apenas aos jornalistas. Defender uma imprensa economicamente viável é defender o direito de cada cidadão de ser informado.
A democracia não morre apenas quando fecham parlamentos ou desrespeitam tribunais. Ela também se desgasta quando as redações diminuem, quando os repórteres deixam as ruas por falta de estrutura, quando a investigação cede espaço ao improviso e quando a informação perde terreno para o ruído.
Enfraquecer o jornalismo é enfraquecer a democracia. Asfixiar a imprensa é reduzir a capacidade da sociedade de vigiar o poder. E uma democracia que deixa de fiscalizar seus governantes passa a correr o risco de servir aos interesses de poucos, em vez de proteger os direitos de todos.
A defesa da imprensa livre não é um privilégio da categoria dos jornalistas. É uma causa de todos aqueles que acreditam que a verdade deve prevalecer sobre a conveniência, que a transparência deve vencer o silêncio e que a democracia somente permanece viva quando a informação circula com independência, responsabilidade e liberdade.
FONTE: Jornal O Fato